quinta-feira, 5 de junho de 2014

À brûle-pourpoint




















Autor: Aarão Macambira

Que dia foi aquele que morri? Não consigo recordar com exatidão dia-mês-ano do ocorrido. Nem consigo estimar há mais ou menos quanto tempo aconteceu. Mas me recordo perfeitamente de tudo que houve naquela noite. 


Eram por volta das quatro da manhã quando resolvemos voltar pra casa a pé depois de uma festa no Derby Clube. Há um quarteirão do nosso prédio dois caras numa bicicleta cruzam o nosso caminho. Um deles armado com um “trinta e oito” prateado salta do quadro em que era carregado e vem em minha direção. Não disse mais do que um: “Ei cara!”; com o revolver apontado para minha testa. Nesse meio tempo não deu pra contar a fração de segundos em que a arma disparou. Lembro com riqueza de detalhes, como se o tempo naquela hora tivesse parado. A arma estourou a menos de um palmo dos meus olhos. Não deu tempo de sentir medo. Não deu tempo esquivar da bala. O cano do revólver jorrou fagulhas como fogos de artifício junto com o atrito do projétil que se esfregou para fora do cano. Nesse eterno segundo quase pude ver a bala saindo da arma em direção ao centro de minha testa. Outro segundo de puro silêncio se deu entre o som do disparo e a reconexão com o mundo. Um momento nunca antes vivido por mim. Aquele momento em que demoramos um milisegundo para nos situarmos sobre as consequências de uma tragédia recém acontecida.


Corremos na direção de casa sem nos preocuparmos com as outras cinco balas que ainda estavam no tambor do “trêsoitão”. Uma delas podia facilmente nos atingir pelas costas. No meio do trajeto me preocupei em olhar para trás. Não pelo medo de tomar um tiro pelas costas, mas para tentar entender o que aquele indivíduo queria. Vi-o estático segurando seu revólver com o cano virado para o chão, sem qualquer menção de uma nova tentativa de nos intimidar. Ficou ali por uns dois segundos fitando o chão como se buscasse uma reflexão profunda sobre o que acabara de acontecer. Segui meu caminho despreocupado. Não tornei a olhar pra trás.


Subimos para o apartamento e todos assustados se entreolhavam. Olhavam para mim como se procurassem um furo a jorrar sangue do meu corpo. E começaram a repetir seguidas vezes: “Nasceu de novo, hein tio.” Tenho cá minhas dúvidas se não morri naquela noite de dia-mês-ano totalmente desconhecidos. Daí em diante, quando me recordo desse momento tenho certa convicção de que morri sim naquela noite. Não há como duvidar que aquela bala passou sem me tocar. Às vezes penso que não se morre propriamente. Cria-se um corte na fita. Aquele momento me dá essa sensação. Como se tivesse morrido e minha alma seguido em frente numa projeção mental temporal, sem aceitar que aquele foi o fim da linha.


Daquela noite até aqui, tudo aconteceu de forma meio que anestesiada como se o piloto automático estivesse ligado. Talvez por no fundo eu alimentar essa dúvida sobre minha real sobrevivência. O certo é que o tempo da minha vida fez um intervalo naquele pequeno momento. Acho que de alguma forma morri e continuei vivo.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sobre Presentes






Autor: Aarão Macambira


A vida é um poço de desejos. É um enorme saco de pedidos que fazemos a nós mesmos para que nós mesmos realizemos. Para mim, fiz vários. E muitos se realizaram. E mais um bocado hão de se realizar.  Acredito que tudo que nos faz o coração brando, deva fazer aos outros também. Então queria partilhar um tanto dos meus desejos com você. Das coisas que me foram presenteadas e que, acredito, a você também lhe seriam gratas.

Desejo que você tenha alguém que o ame com um amor suave, leve e sem rodeios. Que te diga todos os dias que estará sempre ao seu lado. Que partilhará as suas dores, que tomará conhecimento de você para o seu bem. Que te cubra do inverno frio com o cuidado de uma mãe para com seu filho. 

Alguém que te acompanhe onde você for. Que se preciso for, durma ao relento só pra estar com você. Que te salve de ti mesmo apenas com uma palavra amiga. O amor nos salva. O amor nos cura. O amor nos fortalece.

 Desejo a você que todos os dias estejas perto da pessoa amada. Desejo-te o direito de cuidar dela. De demonstrar para ela que você está presente em sua vida tanto quanto ela na sua. Que ninguém, nem nada seja capaz de separar vocês. Porque quando se encontra o amor, a gente se encontra, e não dá pra se deixar de nós mesmos.

Desejo-te um afago no cabelo com mãos leves. Um “bom dia” de coração. Uma vida honesta e digna como um belo pôr-do-sol.

Desejo-te filhos. Alguém em quem você possa se ver. Um filho é um presente inestimável. Alguém de quem você nunca irá se cansar. Uma vida pela qual terá que se dedicar com toda ternura e carinho. Um filho para te contar sobre seu dia e você perceber o quão puro ainda pode ser o mundo. Um belo ser que se pareça com você e que te sopre todos os dias o ar da vida. Porque não somos nós que fazemos os filhos, são eles que nos fazem. Saberás que terá sempre com quem contar. E saberás que estarás bem entregue no final de sua jornada. Os filhos nos doem dores de sorrir, lembre-se.

Desejo-te amigos. Poucos. Pois não há amigos sinceros aos montes. Podemos contar amigos sinceros na metade dos dedos de uma mão. Pois te desejo o máximo de gente que possas conquistar. E que tu sejas para eles tão bom quanto eles sejam para ti. Há de chorar na presença de um amigo e saberás que pode contar com ele.

Desejo-te pais ainda vivos e sábios. Pessoas que te conheçam e para as quais não precises disfarçar uma dor, ou uma vergonha.  Desejo a você que estejas presente na vida deles e que eles jamais duvidem sobre quem você é.  Que sintam acima de tudo orgulho do filho que eles educaram. 

Desejo-te que comas o almoço dominical feito pelas mãos de sua mãe. E que às tardes sente-se ao lado do seu velho para papear sobre as histórias que você já ouviu um milhão de vezes, mas age como se fosse a primeira vez que as ouve.

Desejo-te que te orgulhes de tua trajetória, da pessoa que tu és no dia hoje, da pessoa que pretendes se orgulhar de ser num futuro próximo. Que te orgulhes de ter combatido o bom combate. Que tuas batalhas tenham o peso da justiça e que tua consciência deite serena durante a noite. Que te vanglories das tuas vitórias, não por tê-las apenas conquistado, mas por ter a certeza que fostes leal ao teu oponente.

Desejo para ti, o que tenho de mais valioso. Talvez tu já tenhas tudo. Talvez tenhas só um pouco.

Mas te ofereço humildemente o doce que carrego porque sei a delícia que ele é.



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Claustrofobia


















Autor: Aarão Macambira


As boas intenções nascem do amor mais profundo do ser por ele mesmo. Ninguém é simplesmente bom com o próximo se não estiver satisfazendo em si o prazer íntimo e sublime de sentir-se bem com a felicidade alheia. A verdadeira essência da bondade está na espontaneidade do ato de ser bom. Sentir-se bem em ver a alegria de outrem como se consigo fosse é onde mora o conceito de tudo que existe de bom. Um dia fui assim, um homem de bem comigo e de bem com o mundo.

Hoje vivo a amargura de não sentir mais essa alegria, vivo amargurado pela identidade perdida como se procurasse o elo que me une a mim mesmo. Eu descobri que o mundo é cercado de maldade e doença. As pessoas não pensam nos sentimentos dos outros e só vivem para saciar seus vícios, para alimentar suas deficiências como se fossem filhos queridos. Prover, prover, prover... Experimentei o gosto de ser consumido, de ser mastigado, deglutido pelos interesses dos outros. Não é bom. Manifestou-se em mim o egoísmo e o medo de viver sempre sendo processado com o fim de ser sugado. Eu retribuí com ódio e ojeriza, quis lutar contra, mas não se luta contra um oponente que não se conhece. Hoje a única coisa que quero é sobreviver, não quero mais alimentar as vontades alheias em detrimento das minhas. Já o fiz demais...

Quem sou eu? Já não sei mais a resposta, fui tão maculado que hoje sou pedaços dos meus algozes. Os vampiros me infectaram com sua saliva fria e doce. Quem sou eu? Não há mais como dizer. Ainda há como me reconstruir, não como antes, nem melhor nem pior, mas outro. Quero sim, quero ser outro e não isso que sou agora, melhor ou pior, apenas quero ter escolha. Quero poder abraçar meu destino e aceita-lo como opção e não como imposição.

Amar foi aquilo que de mais forte senti, mas foi o que também mais me trouxe desassossegos, dores profundas, opressão. Mesmo assim, como alguém ainda pode insistir em tamanha insanidade? Doar-se como um cão em troca de quase nada. Sem livre arbítrio, castrado. Mesmo assim é um sentimento bom, lá no fundo é algo que beira a loucura, o sadismo. Queria poder sentir o amor sem essa concepção doentia de não amar-se para amar o outro. Forma egoísta minha, por ser egoísta comigo, deixo de me amar para depois cobrar de outro aquilo que tenho e lhe entrego. Mas essa é a idéia, a forma é essa! Jogar-se e torcer que o rio não seja tão raso, que não te quebre o pescoço. Confiar na natureza de outro ser que nem se conhece, só pode ser loucura...

Partir não quero, prefiro encontrar-me em mim sem ter que tomar a estrada, mas não dependo somente de mim, dependo das escolhas alheias, que não me privilegiam, então o que fazer? Abrir mão de quem se ama por si. É logicamente a melhor opção, mas aqui não se pode discutir lógica, não há lógica na vida, nem nas pessoas, só há o querer. Não há como criar um mundo particular. Eis a questão: fazer de mim um objeto e abdicar dos meus princípios e viver calado, sacrificado e conformado; ou largar tudo e sumir em busca do brilho dos meus olhos, dos amigos que perdi, da família que deixei e das batalhas que ainda quero travar? Aventurar-me outra vez depois de anos de trégua calada e sofrida? Perguntas que terei que responder por mim só. Resignar-me-ei a encontrar uma solução.

Podemos amar infinitamente, podemos sofrer infinitamente, mas não vivemos infinitamente para aceitar tudo até o fim da vida. Escolhas, escolhas...