Autor: Aarão Macambira
Cada um de nós nasceu com uma ferramenta destinada ao xixi e ao prazer. Quando crianças, essas ferramentas só nos serviam ao xixi. Mal sabíamos que aqueles pequenos canais algum dia nos levariam aos prazeres mais absurdos do sexo. A volúpia, o gozo dos orgasmos múltiplos... Casais de amantes se multiplicam em seus delírios carnais. Um só em cada individuo não vale (ou não cabe, vai depender). Cada um tem que se personalizar em dezenas. Muitos fetiches, muitas fantasias. Múltiplos movimentos repetitivos. Poucas repetições das muitas performances. É o ápice do sexo artístico. É como um balé, totalmente sincronizado, cada personagem sabe o seu dever na troca do prazer. Alguém já falou: “sexo é uma arte”. Fazer amor como nos livros mais calientes, como nos filmes eróticos, é deixar extravasar seus desejos mais íntimos, suas vontades mais obscenas. É o sexo moderno. O sexo livre. O sexo, ao natural e ao mais profundo animal. E não é o animalzinho doméstico, não. Não igual aos seus cães quando cruzam no jardim ou os gatos quando barulhentos copulam no telhado. É selvagem, como tigres em seus grupos, ou lobos em suas alcatéias. Será? O sexo animal, o sexo selvagem, nenhum deles se compara ao nosso. São tão chatos em uma única posição sem muito objetivo, não sei porque se usa essa expressão, “sexo selvagem”. Parece até coisa de outro mundo, mas que não tem nada de novidade. A fêmea por baixo, o macho por cima. Nada interessante. Nada de dois ou mais ao mesmo tempo, ou macho com macho e fêmea com fêmea. O sexo animal não tem nada de: ANIMAL! É muito comportado. Ah, que decepção senhores leões, senhoras tigresas, lobos, chimpanzés e avestruzes. Todos muito estereotipados nesse padrão de sexo duplex. Tudo um saco (um único saco mesmo).>
Já nós, homo sapiens, não estereotipamos. Nós somos senhores de nossas ações. Sabemos que podemos ir mais longe do que simplesmente procriar. Fomos realmente feitos para a conjunção carnal de lazer. Nossos corpos são playgrounds nossos e dos outros. Fomos feitos pra diversão! Nosso sexo é o melhor. Algo bem elaborado, como um filme. Nosso sexo é uma arte. Arte como um filme. Espera, há um problema nisso tudo. Não deveria ser assim. O sexo deveria ser uma arte, mas como a poesia e não como um filme. Sexo não deve ser feito como um script seguindo um roteiro. Sexo é como música que o conjunto toca numa seqüência melódica independente. Nós seres humanos não fazemos mais sexo poético como antes se chamava “fazer amor”. Partimos para um falso progresso onde o sexo é determinista. Onde as flores do nosso prazer agora se chamam instrumentos ou ferramentas. Se pararmos e observarmos bem, nossas conjunções são tão performáticas que beiram o teatro cômico. Pernas para cima, cabeças para baixo. Palavras chulas e agressões que chegam a ser patéticas. O amor dos antigos poetas, hoje não passa de um teatro performático com marionetes despidas. Um sexo totalmente estruturado em padrões coletivos. Onde está o diferente? Cadê a individualidade? Existem até livros e manuais sobre como fazer sexo, como se fazer amor fosse como fazer um bolo. Em que somos diferentes dos bichos selvagens de copulação duplex? Em nada, seguimos apenas estereótipos mais complexos por sermos organizados mais complexamente. Será que realmente conseguimos satisfazer nossas vontades com uma transa tão cheia de rigores? O sexo de hoje não passa de uma grande anedota. Um grande teatro erótico movido a regras que se estabelecem até para o nosso prazer mais íntimo. Em que mesmo somos livres, se nem na hora do sexo sempre nos preocupamos menos em satisfazer a nós mesmos e a nossos parceiros em detrimento de uma “performance” que impressione como se nos orgulhássemos de sermos sexualmente adestrados. Não percebemos que até nesse momento somos manipulados. Estamos satisfazendo apenas um conjunto de valores eróticos que se estabelecem sem pedir licença e sem perguntar se concordamos. Felizes são os poetas que ainda acreditam no amor. Felizes são as pessoas que ainda fazem amor com amor. Feliz “papai e mamãe”. Felizes são os animais que ainda tem o objetivo de procriar. Ah, sexo duplex dos animais, quando evoluiremos... Seria trágico se não fosse cômico.