terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Colabore com o meu natal

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Autor: Aarão Macambira

Todo fim de ano já estamos acostumados a encontrar por todos os lugares que freqüentamos as caixinhas com os dizeres: “colabore com o natal dos funcionários”. Nos balcões de supermercados, nas portarias dos prédios. Nos elevadores de condomínios também tem, acreditem, eu já vi: “Colabore com o natal do ascensorista”. Até nos jornais do mês de dezembro vem carimbado o pedido do jornaleiro.
 
É a indústria das moedinhas e das notinhas miúdas que no final do mês fazem a diferença no natal de muita gente. Eu não dôo, porque se todo mundo em todo lugar está pedindo, eu contabilizo que cada moeda ou trocado que eu deposito na caixinha de alguém, eu posso converter para o meu próprio natal. Acho que vou fazer uma caixinha pra mim também. Vou pôr em cima da minha mesa, quem sabe algum colega complacente não queira me ajudar com alguma contribuição? Colocarei um link no meu blog com o número da minha conta pra quem quiser depositar qualquer dinheirinho, poder ficar à vontade pra exercitar a caridade.
 
Já perceberam que no natal é sempre tudo igual? As caixinhas, as confraternizações com os colegas de todos os círculos com os tão clichês amigos secretos, não esquecendo as grandes campanhas da mídia. As doações para um natal sem fome, em que se arrecadam toneladas de alimentos para os carentes, é uma forma da burguesia tentar disfarçar a desigualdade social com um pouco de caridade no fim do ano. Legal, mas será que essas doações duram até o próximo natal? E os outros meses do ano que vem? Será que alguém está fazendo campanha pra alimentar esse monte de faminto? Ora, se o pobre coitado já sobreviveu o ano inteiro só com a ajuda de Deus, no fim do ano alguém tem que dar umas férias pra Deus que nem Ele é de ferro né? Já os pobres brasileiros, estes são de aço...
 
No natal as doações são sempre as mesmas, é a gorjeta do patrão para os funcionários que ralam o ano inteiro pra deixarem ele rico. Ou é esse desencargo de consciência da classe favorecida com campanhas de uma noite ou um resto de ano “sem fome” para os coitados. E o resto? Quando será que doaremos nosso bem mais precioso que é o amor ao próximo, a compaixão e principalmente uma política de distribuição da riqueza de forma humana? Esse não é o motivo do natal? Não foi isso que Cristo quis nos ensinar? Acho que todos pensam que no fim do ano Deus tira férias, vai pra uma praia nos Jardins do Éden e deixa os filhos aos cuidados uns dos outros. E à partir de janeiro Ele volta pra tomar conta dos desafortunados outra vez.
No fim do ano os pobres coitados agradecem a complacência dos ricos e os ricos por sua vez desfrutam de suas ceias de natal com a consciência tranqüila porque sabem que dali a alguns dias lá estarão de volta todos os seus empregados com os mesmos problemas, os sem-teto ainda sem-teto e a aquela sociedade do jeito que os ricos gostam, cheia de mazelas sociais de onde eles passam o ano inteiro sugando suas fortunas para no fim do ano ofertarem suas esmolas aos verdadeiros provedores das suas riquezas.
 
Por isso este final de ano eu vou montar minha caixinha pra pedir a contribuição de todos, e ao contrário de todo mundo, vou querer que coloquem algo melhor que moedinhas e gorjetas. Vou pedir a contribuição moral de cada um. Peço que depositem consciência, tolerância, honestidade, e amor. Neste natal, caberá algo maior do que moedas na minha caixa.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Flores do prazer

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Autor: Aarão Macambira

Cada um de nós nasceu com uma ferramenta destinada ao xixi e ao prazer. Quando crianças, essas ferramentas só nos serviam ao xixi. Mal sabíamos que aqueles pequenos canais algum dia nos levariam aos prazeres mais absurdos do sexo. A volúpia, o gozo dos orgasmos múltiplos... Casais de amantes se multiplicam em seus delírios carnais. Um só em cada individuo não vale (ou não cabe, vai depender). Cada um tem que se personalizar em dezenas. Muitos fetiches, muitas fantasias. Múltiplos movimentos repetitivos. Poucas repetições das muitas performances. É o ápice do sexo artístico. É como um balé, totalmente sincronizado, cada personagem sabe o seu dever na troca do prazer.
 
Alguém já falou: “sexo é uma arte”. Fazer amor como nos livros mais calientes, como nos filmes eróticos, é deixar extravasar seus desejos mais íntimos, suas vontades mais obscenas. É o sexo moderno. O sexo livre. O sexo, ao natural e ao mais profundo animal. E não é o animalzinho doméstico, não. Não igual aos seus cães quando cruzam no jardim ou os gatos quando barulhentos copulam no telhado. É selvagem, como tigres em seus grupos, ou lobos em suas alcatéias. Será? O sexo animal, o sexo selvagem, nenhum deles se compara ao nosso. São tão chatos em uma única posição sem muito objetivo, não sei porque se usa essa expressão, “sexo selvagem”. Parece até coisa de outro mundo, mas que não tem nada de novidade. A fêmea por baixo, o macho por cima. Nada interessante. Nada de dois ou mais ao mesmo tempo, ou macho com macho e fêmea com fêmea. O sexo animal não tem nada de: ANIMAL! É muito comportado. Ah, que decepção senhores leões, senhoras tigresas, lobos, chimpanzés e avestruzes. Todos muito estereotipados nesse padrão de sexo duplex. Tudo um saco (um único saco mesmo).
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Já nós, homo sapiens, não estereotipamos. Nós somos senhores de nossas ações. Sabemos que podemos ir mais longe do que simplesmente procriar. Fomos realmente feitos para a conjunção carnal de lazer. Nossos corpos são playgrounds nossos e dos outros. Fomos feitos pra diversão! Nosso sexo é o melhor. Algo bem elaborado, como um filme. Nosso sexo é uma arte. Arte como um filme. Espera, há um problema nisso tudo. Não deveria ser assim. O sexo deveria ser uma arte, mas como a poesia e não como um filme. Sexo não deve ser feito como um script seguindo um roteiro. Sexo é como música que o conjunto toca numa seqüência melódica independente.
 
Nós seres humanos não fazemos mais sexo poético como antes se chamava “fazer amor”. Partimos para um falso progresso onde o sexo é determinista. Onde as flores do nosso prazer agora se chamam instrumentos ou ferramentas. Se pararmos e observarmos bem, nossas conjunções são tão performáticas que beiram o teatro cômico. Pernas para cima, cabeças para baixo. Palavras chulas e agressões que chegam a ser patéticas. O amor dos antigos poetas, hoje não passa de um teatro performático com marionetes despidas. Um sexo totalmente estruturado em padrões coletivos. Onde está o diferente? Cadê a individualidade? Existem até livros e manuais sobre como fazer sexo, como se fazer amor fosse como fazer um bolo. Em que somos diferentes dos bichos selvagens de copulação duplex? Em nada, seguimos apenas estereótipos mais complexos por sermos organizados mais complexamente. Será que realmente conseguimos satisfazer nossas vontades com uma transa tão cheia de rigores? O sexo de hoje não passa de uma grande anedota. Um grande teatro erótico movido a regras que se estabelecem até para o nosso prazer mais íntimo. Em que mesmo somos livres, se nem na hora do sexo sempre nos preocupamos menos em satisfazer a nós mesmos e a nossos parceiros em detrimento de uma “performance” que impressione como se nos orgulhássemos de sermos sexualmente adestrados. Não percebemos que até nesse momento somos manipulados. Estamos satisfazendo apenas um conjunto de valores eróticos que se estabelecem sem pedir licença e sem perguntar se concordamos.
 
Felizes são os poetas que ainda acreditam no amor. Felizes são as pessoas que ainda fazem amor com amor. Feliz “papai e mamãe”. Felizes são os animais que ainda tem o objetivo de procriar. Ah, sexo duplex dos animais, quando evoluiremos... Seria trágico se não fosse cômico.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Consumidores de gente

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Autor: Aarão Macambira

“Eu preciso comprar umas pessoas”. Você acha que nós queremos dinheiro pra comprar presentes? Nós queremos mesmo é comprar as pessoas. Nós só sobrevivemos comprando os outros. Existem pessoas de todos os preços, umas são mais caras e outras bem mais baratas.
 
Nós compramos percentuais da vida das pessoas, assim como vendemos frações das nossas também. Saímos de casa todas as manhãs e trabalhamos oito horas em média por dia pra quê? Para podermos comprar gente! Sim, queremos muitos, queremos o máximo que podermos possuir. E como fazemos para comprar o máximo de pessoas possíveis? Nós nos vendemos, nos “traímos” muitas vezes para satisfazermos nossas obcecadas vontades de conforto e aceitação social.
 
Então, quanto mais dinheiro, mais frações da vida dos outros a gente compra pra poder sobrar mais frações das nossas. Eu não quero possuir uma casa ou um carro tão somente. Nem quero apenas ter dinheiro para sair pra jantar num restaurante classe A. Eu quero tudo isso pra comprar uma mulher bonita e inteligente pra mim. Eu quero ter dinheiro pra comprar a minha sogra, pra comprar um elogio, ou uma promoção, e se sobrar um trôco eu compro até um cachorro. Mas cachorros são cachorros, estes são bem mais sinceros que as pessoas. Os cães sim, valem o preço que pagamos por eles. Eu jamais deixaria de pagar qualquer quantia para ter um cachorro. Pena que não são os cachorros que comandam a Terra. Por isso, temos que nos valer mesmo de comprar “gato por lebre”, ou melhor, gente por cão. Os cães são bem mais dignos que os homens. Estes animais (os homens) se vendem na maioria das vezes a contra gosto, enquanto os cães se vendem ou se possível se doam sem olhar a quem. O mundo devia ser dos cães!
 
Mas sem falar mais em cachorros, que já provamos que são bem mais humanos que nós (seres humanos?). Quero mostrar que essa nossa agonia infinita de alcançar a felicidade, não passa de uma triste e infeliz odisséia vitalícia a procura de alcançarmos uma utópica realização existencial. Mera ganância inconsciente de possuir gente. É tudo que queremos: gente. Queremos ser donos do açougueiro, do cobrador de ônibus, da vendedora gostosa, da nossa companheira, namorada, mulher, amante (quase donos) e até nossos filhos. Sendo que não passamos de meros vassalos de todos eles porque de alguma forma nós também nos tornamos propriedade de outros por uma troca simples. Nós trocamos parcelas de vida com os nossos clientes, patrões, vizinhos, juízes e padres (também juízes), para podermos adquirir as pessoas que queremos. Então pode-se chegar a uma conclusão e realmente entender quando Rogério Skylab diz que todas as pessoas são “putas”.
 
Putas sim, todos nós. Prostitutas do cotidiano entregues a qualquer destino. Dispostos a abdicar do próprio prazer em razão do prazer do outro, para que num momento posterior possa usufruir o serviço do outro em prol do seu próprio prazer. Putinhas de escritório, frentistas de postos de gasolina. Putinhas das escolas, bibliotecas, restaurantes e bancos. “Oferecemos o melhor serviço em pronta entrega, sempre com os melhores profissionais à disposição”. É ou não, um anúncio publicitário de prostituição? O mercado das putas está lotado, e todos querendo vender seus serviços. O fórum, os shoppings, a igreja, as empresas, todos estão lotados de putas a espera do seu cliente. Vendem um sorriso falso, mas um serviço de qualidade, sem apego afetivo, tudo estritamente profissional. E eu faço a minha parte, me vendo até a ultima gota. Deixo que me possuam, deixo que me usem. E quando saio do escritório procuro esquecer aqueles momentos de exploração e trato de abusar de alguém pra ver se me sinto melhor. “Garçom, me sirva!”, “Moça, me atenda!”.
 
Então, se venda. Cobre caro pelo seu prazer e compre mais pessoas. Alugue quem lhe for conveniente. Não tenha piedade destas almas, olhe todos como “putas” que são. Consuma seus semelhantes. Extraia deles sua essência e acumule o seu. Canibalize todos. Individualize-se e encontre a felicidade! Mas não esqueça, quando quiser um pouco de carinho e sinceridade, compre um cão.