quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sobre Presentes






Autor: Aarão Macambira


A vida é um poço de desejos. É um enorme saco de pedidos que fazemos a nós mesmos para que nós mesmos realizemos. Para mim, fiz vários. E muitos se realizaram. E mais um bocado hão de se realizar.  Acredito que tudo que nos faz o coração brando, deva fazer aos outros também. Então queria partilhar um tanto dos meus desejos com você. Das coisas que me foram presenteadas e que, acredito, a você também lhe seriam gratas.

Desejo que você tenha alguém que o ame com um amor suave, leve e sem rodeios. Que te diga todos os dias que estará sempre ao seu lado. Que partilhará as suas dores, que tomará conhecimento de você para o seu bem. Que te cubra do inverno frio com o cuidado de uma mãe para com seu filho. 

Alguém que te acompanhe onde você for. Que se preciso for, durma ao relento só pra estar com você. Que te salve de ti mesmo apenas com uma palavra amiga. O amor nos salva. O amor nos cura. O amor nos fortalece.

 Desejo a você que todos os dias estejas perto da pessoa amada. Desejo-te o direito de cuidar dela. De demonstrar para ela que você está presente em sua vida tanto quanto ela na sua. Que ninguém, nem nada seja capaz de separar vocês. Porque quando se encontra o amor, a gente se encontra, e não dá pra se deixar de nós mesmos.

Desejo-te um afago no cabelo com mãos leves. Um “bom dia” de coração. Uma vida honesta e digna como um belo pôr-do-sol.

Desejo-te filhos. Alguém em quem você possa se ver. Um filho é um presente inestimável. Alguém de quem você nunca irá se cansar. Uma vida pela qual terá que se dedicar com toda ternura e carinho. Um filho para te contar sobre seu dia e você perceber o quão puro ainda pode ser o mundo. Um belo ser que se pareça com você e que te sopre todos os dias o ar da vida. Porque não somos nós que fazemos os filhos, são eles que nos fazem. Saberás que terá sempre com quem contar. E saberás que estarás bem entregue no final de sua jornada. Os filhos nos doem dores de sorrir, lembre-se.

Desejo-te amigos. Poucos. Pois não há amigos sinceros aos montes. Podemos contar amigos sinceros na metade dos dedos de uma mão. Pois te desejo o máximo de gente que possas conquistar. E que tu sejas para eles tão bom quanto eles sejam para ti. Há de chorar na presença de um amigo e saberás que pode contar com ele.

Desejo-te pais ainda vivos e sábios. Pessoas que te conheçam e para as quais não precises disfarçar uma dor, ou uma vergonha.  Desejo a você que estejas presente na vida deles e que eles jamais duvidem sobre quem você é.  Que sintam acima de tudo orgulho do filho que eles educaram. 

Desejo-te que comas o almoço dominical feito pelas mãos de sua mãe. E que às tardes sente-se ao lado do seu velho para papear sobre as histórias que você já ouviu um milhão de vezes, mas age como se fosse a primeira vez que as ouve.

Desejo-te que te orgulhes de tua trajetória, da pessoa que tu és no dia hoje, da pessoa que pretendes se orgulhar de ser num futuro próximo. Que te orgulhes de ter combatido o bom combate. Que tuas batalhas tenham o peso da justiça e que tua consciência deite serena durante a noite. Que te vanglories das tuas vitórias, não por tê-las apenas conquistado, mas por ter a certeza que fostes leal ao teu oponente.

Desejo para ti, o que tenho de mais valioso. Talvez tu já tenhas tudo. Talvez tenhas só um pouco.

Mas te ofereço humildemente o doce que carrego porque sei a delícia que ele é.



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Claustrofobia


















Autor: Aarão Macambira


As boas intenções nascem do amor mais profundo do ser por ele mesmo. Ninguém é simplesmente bom com o próximo se não estiver satisfazendo em si o prazer íntimo e sublime de sentir-se bem com a felicidade alheia. A verdadeira essência da bondade está na espontaneidade do ato de ser bom. Sentir-se bem em ver a alegria de outrem como se consigo fosse é onde mora o conceito de tudo que existe de bom. Um dia fui assim, um homem de bem comigo e de bem com o mundo.

Hoje vivo a amargura de não sentir mais essa alegria, vivo amargurado pela identidade perdida como se procurasse o elo que me une a mim mesmo. Eu descobri que o mundo é cercado de maldade e doença. As pessoas não pensam nos sentimentos dos outros e só vivem para saciar seus vícios, para alimentar suas deficiências como se fossem filhos queridos. Prover, prover, prover... Experimentei o gosto de ser consumido, de ser mastigado, deglutido pelos interesses dos outros. Não é bom. Manifestou-se em mim o egoísmo e o medo de viver sempre sendo processado com o fim de ser sugado. Eu retribuí com ódio e ojeriza, quis lutar contra, mas não se luta contra um oponente que não se conhece. Hoje a única coisa que quero é sobreviver, não quero mais alimentar as vontades alheias em detrimento das minhas. Já o fiz demais...

Quem sou eu? Já não sei mais a resposta, fui tão maculado que hoje sou pedaços dos meus algozes. Os vampiros me infectaram com sua saliva fria e doce. Quem sou eu? Não há mais como dizer. Ainda há como me reconstruir, não como antes, nem melhor nem pior, mas outro. Quero sim, quero ser outro e não isso que sou agora, melhor ou pior, apenas quero ter escolha. Quero poder abraçar meu destino e aceita-lo como opção e não como imposição.

Amar foi aquilo que de mais forte senti, mas foi o que também mais me trouxe desassossegos, dores profundas, opressão. Mesmo assim, como alguém ainda pode insistir em tamanha insanidade? Doar-se como um cão em troca de quase nada. Sem livre arbítrio, castrado. Mesmo assim é um sentimento bom, lá no fundo é algo que beira a loucura, o sadismo. Queria poder sentir o amor sem essa concepção doentia de não amar-se para amar o outro. Forma egoísta minha, por ser egoísta comigo, deixo de me amar para depois cobrar de outro aquilo que tenho e lhe entrego. Mas essa é a idéia, a forma é essa! Jogar-se e torcer que o rio não seja tão raso, que não te quebre o pescoço. Confiar na natureza de outro ser que nem se conhece, só pode ser loucura...

Partir não quero, prefiro encontrar-me em mim sem ter que tomar a estrada, mas não dependo somente de mim, dependo das escolhas alheias, que não me privilegiam, então o que fazer? Abrir mão de quem se ama por si. É logicamente a melhor opção, mas aqui não se pode discutir lógica, não há lógica na vida, nem nas pessoas, só há o querer. Não há como criar um mundo particular. Eis a questão: fazer de mim um objeto e abdicar dos meus princípios e viver calado, sacrificado e conformado; ou largar tudo e sumir em busca do brilho dos meus olhos, dos amigos que perdi, da família que deixei e das batalhas que ainda quero travar? Aventurar-me outra vez depois de anos de trégua calada e sofrida? Perguntas que terei que responder por mim só. Resignar-me-ei a encontrar uma solução.

Podemos amar infinitamente, podemos sofrer infinitamente, mas não vivemos infinitamente para aceitar tudo até o fim da vida. Escolhas, escolhas...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Nada que há e a invisibilidade do ser






















 Autor: Aarão Macambira


Pegou a garrafa na mão. O plástico estava morno, mesmo assim abriu a tampa e tomou um gole. A cachaça desceu rasgando goela abaixo. Sentiu todo o seu corpo ferver, a testa ficou molhada de suor. Já eram duas da tarde e o sol estava pegando fogo. Na praça, poucas árvores capazes de abrigar um pobre coitado à sombra. Observou a chegada de um carro conduzido por um homem, vidro fechados, ar-condicionado tinindo, o que fazia o para-brisa embaçar na parte de baixo. O homem usava terno e gravata. Com um calor desses do lado de fora, poderia morar dentro do carro. Só assim mesmo, com aquele ar-condicionado para suportar vestir terno naquele horário. Apontou para o motorista que ali poderia estacionar. A vaga estava desocupada. O motorista como se não percebesse o homem sinalizando para ele, estaciona. Ao abrir a porta, dava para sentir o frescor que vinha de dentro do veículo. “Pode deixar cidadão, eu fico aqui olhando”, falou. O homem que já estava ao celular com alguém, não deu qualquer sinal de que ao menos vira o outro e seguiu para o restaurante.

Eram duas da tarde e muita gente ainda chegava para o almoço. O cheiro forte da comida desnorteava, fazia a boca salivar como se desse para comer o cheiro. Mais um gole da garrafa que fervia escondida num canto da calçada quente. Mais uma fez o líquido rolou fumegante para dentro do estômago vazio. Desta vez o corpo quis rejeitar. Expelir aquilo de volta, não! Segurou a substância dentro de si com ganância. Depois de sentir o corpo inflamar por dentro outra vez, pegou um pedaço de caixa de papelão para prender no para-brisa do carro recém-estacionado. Apesar de estar bem vestido e aparentar boa condição, aquele tipo já lhe era conhecido, eram os mais mesquinhos, muitos davam a desculpa de que não tinham trocados nem moedas antes de embarcarem de volta em seus confortáveis veículos. 

A cachaça indigesta não aplacava-lhe a fome. Tinha tomado café cedo da manhã: uma sobra de pão com um copo de café preto. Daí até agora não havia posto mais nada além da velha “cana” na barriga. Com um pedaço de cabo de vassoura na mão, deu uma volta para ver o movimento dos carros. Chegou até a esquina. O restaurante cheirava muito bem. Lá não tinha nenhum funcionário que fosse seu amigo e lhe guardasse alguma sobra de almoço. Tanta comida jogada fora, sem proveito pra ninguém. Era norma do estabelecimento que não dessem nenhuma sobra para evitar que os mendigos fizessem ponto por lá. Observou de novo o homem que acabara de chegar pedindo seu almoço. Deve ter escolhido um prato desses bem suculentos e cheio de “sustância”. Achou melhor dar meia volta e não mais se martirizar assistindo aquilo. Naquele momento era como se o prazer alheio lhe fosse uma imolação. Nunca pensava a respeito dessas coisas. Era um mundo que não era seu e não se sentia na condição de ameaçar essa estrutura. Era um inseto, ninguém o via. Não tinha ao menos a capacidade de incomodar. Era invisível. Afinal, já tinha seus problemas. Tinha que se preocupar com a concorrência de um indivíduo que queria lhe tomar o ponto de trabalho. Estava pronto e de olhos abertos à espera daquele maldito! Era mais um viciado que passava o dia guardando carros atrás de juntar trocados pra comprar “pedra”. Tantas vezes já haviam lhe oferecido uma “fumada”. Provou somente uma vez, mas já sabia que aquilo iria acabar com ele. Tinha visto muita gente por aí se lascando na droga. Não queria virar um zumbi como os outros, que todo tostão que ganhavam era pra comprar crack. Esse tal cara só vivia “zoado” por causa da droga, e todo mundo sabe que com “maluco drogado” a gente não pode vacilar. Era um fissurado que chegou lá já na “força bruta” querendo “ganhar no grito”. Sentia-se como um cachorro defendendo seu espaço, tendo que rosnar, latir e até morder. “Não perderia seu lugar pra qualquer vagabundo viciado em pedra!”. Tinha seus truques também, andava sempre com sua faquinha guardada no pé de uma árvore lá na praça. Ninguém que se metesse a besta com ele. Também sabia se defender. Desde criança foi assim, teve que aprender a ser esperto pra sobreviver. Uma vez havia derrubado um moleque maior que ele com uma pedrada certeira na cabeça. Na rua é assim, não tem lei.

A boca estava amarga de fome quando o senhor que havia entrado no restaurante já se dirigia ao seu carro. Fumava um cigarro que já estava pela metade. Deve ter pedido um café e acendeu um cigarro depois da refeição. “O senhor tem um trocado aí pro guardador? É pra inteirar o dinheiro do meu almoço. Ainda não almocei, cidadão.”. O homem procurou nos bolsos algum trocado. Entrou no carro e catou umas moedas no painel e entregou. Antes de sair jogou fora o cigarro. De pronto o “guardador” apanhou a bituca e terminou de fumar. Na mesma hora seu estômago doeu. Sentiu uma tontura. Olhou na mão as moedas que o homem havia lhe dado. Alguns centavos. “Maldito pão-duro!”. Se já não fosse conhecido naquele ponto, podia ter lhe enfiado o prego na pintura do carro. Tinha feito isso várias vezes quando trabalhava no farol limpando para-brisas. Várias vezes aconteceu de limpar o vidro das madames que paravam no sinal e que nem uma moeda lhe davam. Não baixavam sequer o vidro pra agradecer e dizer que estavam sem trocado. Metia-lhe o prego na pintura. Fazia um risco de ponta a ponta. Lavava a alma. Uma vez um homem lhe chamou de vagabundo. Mandou-o procurar um emprego. Ficou tão irado que quebrou o retrovisor do carro. Não havia estudado, não tinha pai rico. Fora criado na rua, como teria um emprego decente?

Com as moedas e trocados que havia juntado, mal dava pra comprar uma marmita. Comeu ali mesmo na calçada. Não demorou nada e já havia devorado tudo. Tomou mais uma dose de cachaça e alguns goles d’água que guardava numa garrafa descartável de refrigerante. Tinha a sorte que o porteiro de um dos prédios da vizinhança todos os dias enchia sua garrafa d’água. Entendia que as pessoas mais humildes se ajudavam. Os pobres se compadecem bem mais com os outros do que os que têm maiores condições. Logo ele que não sonhava muito alto. Tinha ambições urgentes como achar um lugar razoável onde pudesse dormir à noite. Não tolerava aqueles viciados passarem a noite fumando crack debaixo do viaduto. Há qualquer momento um “nóia” daqueles podia esmagar sua cabeça com um paralelepípedo enquanto dormia. Tinha que dormir com um olho aberto e outro fechado. Apesar de ter alguns companheiros, tinha também alguns inimigos que já o tinham marcado. Era bom ficar atento.

Um carro acabara de estacionar. De dentro saiu uma bela moça. O cheiro dela era inebriante, de alguma forma lhe pareceu com a cachaça. Ao sentir seu cheiro, imaginou seu gosto. Tinha uma frescura naquela pele alva que o enfeitiçou. Seu corpo todo estremeceu. Ela lhe sorriu. Seguiu seu caminho, mas deixou o rastro do seu cheiro. Nunca uma mulher como aquela havia lhe sorrido. Ficou estarrecido. Teve alguns segundos de êxtase por aquela manifestação. Queria entender o que havia feito para receber aquela demonstração tão sincera. Ela lhe sorriu! Um sorriso meigo. Suave como a aparência que ela tinha. Como o cheiro que exalava. Ele sorriu. Sorriu para si. Não se atreveria a devolvê-la o sorriso. Sentiu o êxtase passar. Começou a refletir: nunca teria uma mulher como aquela. Nunca seria capaz de tocar em uma mulher como ela. Sentiu uma dor. Uma dor pior que as dores no estômago quando estava com fome. Sentiu uma dor na alma. É como se ser quem ele era doesse. Então se o fosse, para o resto da vida, doeria. Desnorteou-se. Procurou sua garrafa de cachaça e virou em vários goles. Sorveu o que podia. Preferia ser invisível. Um inseto. Jamais queria ser notado outra vez.