Autor: Aarão Macambira
Pegou a garrafa na mão. O plástico estava morno, mesmo assim
abriu a tampa e tomou um gole. A cachaça desceu rasgando goela abaixo. Sentiu
todo o seu corpo ferver, a testa ficou molhada de suor. Já eram duas da tarde e
o sol estava pegando fogo. Na praça, poucas árvores capazes de abrigar um pobre
coitado à sombra. Observou a chegada de um carro conduzido por um homem, vidro
fechados, ar-condicionado tinindo, o que fazia o para-brisa embaçar na parte de
baixo. O homem usava terno e gravata. Com um calor desses do lado de fora,
poderia morar dentro do carro. Só assim mesmo, com aquele ar-condicionado para
suportar vestir terno naquele horário. Apontou para o motorista que ali poderia
estacionar. A vaga estava desocupada. O motorista como se não percebesse o
homem sinalizando para ele, estaciona. Ao abrir a porta, dava para sentir o
frescor que vinha de dentro do veículo. “Pode deixar cidadão, eu fico aqui
olhando”, falou. O homem que já estava ao celular com alguém, não deu qualquer
sinal de que ao menos vira o outro e seguiu para o restaurante.
Eram duas da tarde e muita gente ainda chegava para o
almoço. O cheiro forte da comida desnorteava, fazia a boca salivar como se
desse para comer o cheiro. Mais um gole da garrafa que fervia escondida num
canto da calçada quente. Mais uma fez o líquido rolou fumegante para dentro do
estômago vazio. Desta vez o corpo quis rejeitar. Expelir aquilo de volta, não!
Segurou a substância dentro de si com ganância. Depois de sentir o corpo
inflamar por dentro outra vez, pegou um pedaço de caixa de papelão para prender
no para-brisa do carro recém-estacionado. Apesar de estar bem vestido e
aparentar boa condição, aquele tipo já lhe era conhecido, eram os mais
mesquinhos, muitos davam a desculpa de que não tinham trocados nem moedas antes
de embarcarem de volta em seus confortáveis veículos.
A cachaça indigesta não aplacava-lhe a fome. Tinha tomado
café cedo da manhã: uma sobra de pão com um copo de café preto. Daí até agora
não havia posto mais nada além da velha “cana” na barriga. Com um pedaço de
cabo de vassoura na mão, deu uma volta para ver o movimento dos carros. Chegou
até a esquina. O restaurante cheirava muito bem. Lá não tinha nenhum
funcionário que fosse seu amigo e lhe guardasse alguma sobra de almoço. Tanta
comida jogada fora, sem proveito pra ninguém. Era norma do estabelecimento que
não dessem nenhuma sobra para evitar que os mendigos fizessem ponto por lá. Observou
de novo o homem que acabara de chegar pedindo seu almoço. Deve ter escolhido um
prato desses bem suculentos e cheio de “sustância”. Achou melhor dar meia volta
e não mais se martirizar assistindo aquilo. Naquele momento era como se o
prazer alheio lhe fosse uma imolação. Nunca pensava a respeito dessas coisas.
Era um mundo que não era seu e não se sentia na condição de ameaçar essa
estrutura. Era um inseto, ninguém o via. Não tinha ao menos a capacidade de
incomodar. Era invisível. Afinal, já tinha seus problemas. Tinha que se
preocupar com a concorrência de um indivíduo que queria lhe tomar o ponto de
trabalho. Estava pronto e de olhos abertos à espera daquele maldito! Era mais
um viciado que passava o dia guardando carros atrás de juntar trocados pra
comprar “pedra”. Tantas vezes já haviam lhe oferecido uma “fumada”. Provou
somente uma vez, mas já sabia que aquilo iria acabar com ele. Tinha visto muita
gente por aí se lascando na droga. Não queria virar um zumbi como os outros, que
todo tostão que ganhavam era pra comprar crack. Esse tal cara só vivia “zoado”
por causa da droga, e todo mundo sabe que com “maluco drogado” a gente não pode
vacilar. Era um fissurado que chegou lá já na “força bruta” querendo “ganhar no
grito”. Sentia-se como um cachorro defendendo seu espaço, tendo que rosnar, latir
e até morder. “Não perderia seu lugar pra qualquer vagabundo viciado em pedra!”.
Tinha seus truques também, andava sempre com sua faquinha guardada no pé de uma
árvore lá na praça. Ninguém que se metesse a besta com ele. Também sabia se
defender. Desde criança foi assim, teve que aprender a ser esperto pra
sobreviver. Uma vez havia derrubado um moleque maior que ele com uma pedrada
certeira na cabeça. Na rua é assim, não tem lei.
A boca estava amarga de fome quando o senhor que havia
entrado no restaurante já se dirigia ao seu carro. Fumava um cigarro que já
estava pela metade. Deve ter pedido um café e acendeu um cigarro depois da
refeição. “O senhor tem um trocado aí pro guardador? É pra inteirar o dinheiro
do meu almoço. Ainda não almocei, cidadão.”. O homem procurou nos bolsos algum
trocado. Entrou no carro e catou umas moedas no painel e entregou. Antes de
sair jogou fora o cigarro. De pronto o “guardador” apanhou a bituca e terminou
de fumar. Na mesma hora seu estômago doeu. Sentiu uma tontura. Olhou na mão as
moedas que o homem havia lhe dado. Alguns centavos. “Maldito pão-duro!”. Se já
não fosse conhecido naquele ponto, podia ter lhe enfiado o prego na pintura do
carro. Tinha feito isso várias vezes quando trabalhava no farol limpando para-brisas.
Várias vezes aconteceu de limpar o vidro das madames que paravam no sinal e que
nem uma moeda lhe davam. Não baixavam sequer o vidro pra agradecer e dizer que
estavam sem trocado. Metia-lhe o prego na pintura. Fazia um risco de ponta a
ponta. Lavava a alma. Uma vez um homem lhe chamou de vagabundo. Mandou-o
procurar um emprego. Ficou tão irado que quebrou o retrovisor do carro. Não
havia estudado, não tinha pai rico. Fora criado na rua, como teria um emprego
decente?
Com as moedas e trocados que havia juntado, mal dava pra
comprar uma marmita. Comeu ali mesmo na calçada. Não demorou nada e já havia
devorado tudo. Tomou mais uma dose de cachaça e alguns goles d’água que
guardava numa garrafa descartável de refrigerante. Tinha a sorte que o porteiro
de um dos prédios da vizinhança todos os dias enchia sua garrafa d’água.
Entendia que as pessoas mais humildes se ajudavam. Os pobres se compadecem bem
mais com os outros do que os que têm maiores condições. Logo ele que não
sonhava muito alto. Tinha ambições urgentes como achar um lugar razoável onde
pudesse dormir à noite. Não tolerava aqueles viciados passarem a noite fumando
crack debaixo do viaduto. Há qualquer momento um “nóia” daqueles podia esmagar
sua cabeça com um paralelepípedo enquanto dormia. Tinha que dormir com um olho
aberto e outro fechado. Apesar de ter alguns companheiros, tinha também alguns
inimigos que já o tinham marcado. Era bom ficar atento.
Um carro acabara de estacionar. De dentro saiu uma bela
moça. O cheiro dela era inebriante, de alguma forma lhe pareceu com a cachaça.
Ao sentir seu cheiro, imaginou seu gosto. Tinha uma frescura naquela pele alva
que o enfeitiçou. Seu corpo todo estremeceu. Ela lhe sorriu. Seguiu seu caminho,
mas deixou o rastro do seu cheiro. Nunca uma mulher como aquela havia lhe sorrido. Ficou
estarrecido. Teve alguns segundos de êxtase por aquela manifestação. Queria
entender o que havia feito para receber aquela demonstração tão sincera. Ela
lhe sorriu! Um sorriso meigo. Suave como a aparência que ela tinha. Como o
cheiro que exalava. Ele sorriu. Sorriu para si. Não se atreveria a devolvê-la o sorriso. Sentiu o êxtase passar. Começou a refletir: nunca teria uma mulher
como aquela. Nunca seria capaz de tocar em uma mulher como ela. Sentiu uma dor.
Uma dor pior que as dores no estômago quando estava com fome. Sentiu uma dor na
alma. É como se ser quem ele era doesse. Então se o fosse, para o resto da
vida, doeria. Desnorteou-se. Procurou sua garrafa de cachaça e virou em vários
goles. Sorveu o que podia. Preferia ser invisível. Um inseto. Jamais queria ser
notado outra vez.

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