sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Nada que há e a invisibilidade do ser






















 Autor: Aarão Macambira


Pegou a garrafa na mão. O plástico estava morno, mesmo assim abriu a tampa e tomou um gole. A cachaça desceu rasgando goela abaixo. Sentiu todo o seu corpo ferver, a testa ficou molhada de suor. Já eram duas da tarde e o sol estava pegando fogo. Na praça, poucas árvores capazes de abrigar um pobre coitado à sombra. Observou a chegada de um carro conduzido por um homem, vidro fechados, ar-condicionado tinindo, o que fazia o para-brisa embaçar na parte de baixo. O homem usava terno e gravata. Com um calor desses do lado de fora, poderia morar dentro do carro. Só assim mesmo, com aquele ar-condicionado para suportar vestir terno naquele horário. Apontou para o motorista que ali poderia estacionar. A vaga estava desocupada. O motorista como se não percebesse o homem sinalizando para ele, estaciona. Ao abrir a porta, dava para sentir o frescor que vinha de dentro do veículo. “Pode deixar cidadão, eu fico aqui olhando”, falou. O homem que já estava ao celular com alguém, não deu qualquer sinal de que ao menos vira o outro e seguiu para o restaurante.

Eram duas da tarde e muita gente ainda chegava para o almoço. O cheiro forte da comida desnorteava, fazia a boca salivar como se desse para comer o cheiro. Mais um gole da garrafa que fervia escondida num canto da calçada quente. Mais uma fez o líquido rolou fumegante para dentro do estômago vazio. Desta vez o corpo quis rejeitar. Expelir aquilo de volta, não! Segurou a substância dentro de si com ganância. Depois de sentir o corpo inflamar por dentro outra vez, pegou um pedaço de caixa de papelão para prender no para-brisa do carro recém-estacionado. Apesar de estar bem vestido e aparentar boa condição, aquele tipo já lhe era conhecido, eram os mais mesquinhos, muitos davam a desculpa de que não tinham trocados nem moedas antes de embarcarem de volta em seus confortáveis veículos. 

A cachaça indigesta não aplacava-lhe a fome. Tinha tomado café cedo da manhã: uma sobra de pão com um copo de café preto. Daí até agora não havia posto mais nada além da velha “cana” na barriga. Com um pedaço de cabo de vassoura na mão, deu uma volta para ver o movimento dos carros. Chegou até a esquina. O restaurante cheirava muito bem. Lá não tinha nenhum funcionário que fosse seu amigo e lhe guardasse alguma sobra de almoço. Tanta comida jogada fora, sem proveito pra ninguém. Era norma do estabelecimento que não dessem nenhuma sobra para evitar que os mendigos fizessem ponto por lá. Observou de novo o homem que acabara de chegar pedindo seu almoço. Deve ter escolhido um prato desses bem suculentos e cheio de “sustância”. Achou melhor dar meia volta e não mais se martirizar assistindo aquilo. Naquele momento era como se o prazer alheio lhe fosse uma imolação. Nunca pensava a respeito dessas coisas. Era um mundo que não era seu e não se sentia na condição de ameaçar essa estrutura. Era um inseto, ninguém o via. Não tinha ao menos a capacidade de incomodar. Era invisível. Afinal, já tinha seus problemas. Tinha que se preocupar com a concorrência de um indivíduo que queria lhe tomar o ponto de trabalho. Estava pronto e de olhos abertos à espera daquele maldito! Era mais um viciado que passava o dia guardando carros atrás de juntar trocados pra comprar “pedra”. Tantas vezes já haviam lhe oferecido uma “fumada”. Provou somente uma vez, mas já sabia que aquilo iria acabar com ele. Tinha visto muita gente por aí se lascando na droga. Não queria virar um zumbi como os outros, que todo tostão que ganhavam era pra comprar crack. Esse tal cara só vivia “zoado” por causa da droga, e todo mundo sabe que com “maluco drogado” a gente não pode vacilar. Era um fissurado que chegou lá já na “força bruta” querendo “ganhar no grito”. Sentia-se como um cachorro defendendo seu espaço, tendo que rosnar, latir e até morder. “Não perderia seu lugar pra qualquer vagabundo viciado em pedra!”. Tinha seus truques também, andava sempre com sua faquinha guardada no pé de uma árvore lá na praça. Ninguém que se metesse a besta com ele. Também sabia se defender. Desde criança foi assim, teve que aprender a ser esperto pra sobreviver. Uma vez havia derrubado um moleque maior que ele com uma pedrada certeira na cabeça. Na rua é assim, não tem lei.

A boca estava amarga de fome quando o senhor que havia entrado no restaurante já se dirigia ao seu carro. Fumava um cigarro que já estava pela metade. Deve ter pedido um café e acendeu um cigarro depois da refeição. “O senhor tem um trocado aí pro guardador? É pra inteirar o dinheiro do meu almoço. Ainda não almocei, cidadão.”. O homem procurou nos bolsos algum trocado. Entrou no carro e catou umas moedas no painel e entregou. Antes de sair jogou fora o cigarro. De pronto o “guardador” apanhou a bituca e terminou de fumar. Na mesma hora seu estômago doeu. Sentiu uma tontura. Olhou na mão as moedas que o homem havia lhe dado. Alguns centavos. “Maldito pão-duro!”. Se já não fosse conhecido naquele ponto, podia ter lhe enfiado o prego na pintura do carro. Tinha feito isso várias vezes quando trabalhava no farol limpando para-brisas. Várias vezes aconteceu de limpar o vidro das madames que paravam no sinal e que nem uma moeda lhe davam. Não baixavam sequer o vidro pra agradecer e dizer que estavam sem trocado. Metia-lhe o prego na pintura. Fazia um risco de ponta a ponta. Lavava a alma. Uma vez um homem lhe chamou de vagabundo. Mandou-o procurar um emprego. Ficou tão irado que quebrou o retrovisor do carro. Não havia estudado, não tinha pai rico. Fora criado na rua, como teria um emprego decente?

Com as moedas e trocados que havia juntado, mal dava pra comprar uma marmita. Comeu ali mesmo na calçada. Não demorou nada e já havia devorado tudo. Tomou mais uma dose de cachaça e alguns goles d’água que guardava numa garrafa descartável de refrigerante. Tinha a sorte que o porteiro de um dos prédios da vizinhança todos os dias enchia sua garrafa d’água. Entendia que as pessoas mais humildes se ajudavam. Os pobres se compadecem bem mais com os outros do que os que têm maiores condições. Logo ele que não sonhava muito alto. Tinha ambições urgentes como achar um lugar razoável onde pudesse dormir à noite. Não tolerava aqueles viciados passarem a noite fumando crack debaixo do viaduto. Há qualquer momento um “nóia” daqueles podia esmagar sua cabeça com um paralelepípedo enquanto dormia. Tinha que dormir com um olho aberto e outro fechado. Apesar de ter alguns companheiros, tinha também alguns inimigos que já o tinham marcado. Era bom ficar atento.

Um carro acabara de estacionar. De dentro saiu uma bela moça. O cheiro dela era inebriante, de alguma forma lhe pareceu com a cachaça. Ao sentir seu cheiro, imaginou seu gosto. Tinha uma frescura naquela pele alva que o enfeitiçou. Seu corpo todo estremeceu. Ela lhe sorriu. Seguiu seu caminho, mas deixou o rastro do seu cheiro. Nunca uma mulher como aquela havia lhe sorrido. Ficou estarrecido. Teve alguns segundos de êxtase por aquela manifestação. Queria entender o que havia feito para receber aquela demonstração tão sincera. Ela lhe sorriu! Um sorriso meigo. Suave como a aparência que ela tinha. Como o cheiro que exalava. Ele sorriu. Sorriu para si. Não se atreveria a devolvê-la o sorriso. Sentiu o êxtase passar. Começou a refletir: nunca teria uma mulher como aquela. Nunca seria capaz de tocar em uma mulher como ela. Sentiu uma dor. Uma dor pior que as dores no estômago quando estava com fome. Sentiu uma dor na alma. É como se ser quem ele era doesse. Então se o fosse, para o resto da vida, doeria. Desnorteou-se. Procurou sua garrafa de cachaça e virou em vários goles. Sorveu o que podia. Preferia ser invisível. Um inseto. Jamais queria ser notado outra vez.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Eu Sou Arcaico

















Autor: Aarão Macambira

 
Eu sou antigo, velho mesmo, arcaico. Eu gosto de ser assim, o moderno é careta, é falso. Eu sou arcaico, mas arcaico mesmo. Velho que nem o chão. Não há nada mais moderno. Porque o que é novo hoje, é só uma novidade repetida, um conceito recriado do tacanho, da forma de segregar e etiquetar; transformar gente em produto. Não! O arcaico é diferente, ele vem lá da essência, do nu, do cru. O arcaico que eu sou é pedra, não apodrece como o novo que hoje é verde, broto e amanhã fica podre. O meu moderno é antigo, rocha dos primórdios do mundo, que se molda, mas não se parte. É essência de tudo que passou, sedimentado e preservado. Duro, árido, concreto, compacto, forte...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Superficialidades

 
Autor: Aarão Macambira


Eu sofro por só ter amigos bem sucedidos que tomam uísque, falam sobre carros e investimentos, ao invés de estar com um violão e alguns loucos sentado numa beira de calçada.

Eu sofro por ter um emprego público que me paga bem pelo pouco que eu faço, mas não posso reclamar, eu poderia ter um emprego ruim na minha cidade, e nos finais de semana ir à praia de ônibus com os amigos.

Eu sofro por ter uma bela casa bem no centro da cidade e nunca mais precisar tomar um trem lotado ou andar de ônibus por aí só pra meditar sobre a vida.

Eu sofro por ter muito mais do que preciso e saber que a comida que sobra no pedido vai para o lixo que algum faminto vai comer.

Eu sofro por ter um plano de saúde que cobre o tratamento das minhas dores sedentárias, já que não tenho mais tempo de jogar futebol no final da tarde.

Eu sofro por estar cercado de pessoas politicamente corretas ao invés de simplesmente andar por aí com pessoas sinceras.

Eu sofro por ter uma empregada que deixa tudo arrumadinho do jeito que eu não gosto e que não me dá a chance de eu mesmo reparar os meus mal feitos.

Eu sofro por saber que tudo isso que tenho hoje é como uma nuvem de fumaça que com uma leve brisa se desfaz.

Eu sofro com as superficialidades do meu mundo.

Neymarismo Social


                                                                            


















Autor: Aarão Macambira

Será que sou só eu que estou cansado dessa nova moda social hipócrita dos dias de hoje? Vivemos hoje sob uma “cagação-de-regra” geral onde todo mundo é bonzinho. Que sociedade idiotizada é essa em que as pessoas acham que conseguem esconder sua real essência? Essa moda politicamente correta que ninguém pode mais falar ou contar uma piada sem que caia no julgamento “cagarregrista” hipócrita de alguém que queira te processar porque se sente ofendido de forma racista, religiosa, pedagógica, ou sei lá o quê. Somos a sociedade dos melindres, e vivemos essa ditadura. É a ditadura do melindre, todo mundo procurando cabelo em ovo pra se sentir ofendido moralmente, pra apontar o dedo na direção do outro e mostrar que é bonzinho, que é vítima, isso e aquilo... Culpa dessa ordem social assistencialista que vem desde cedo transformando marginal em vítima social. Culpa desses pais de hoje em dia que vem mal-educando seus filhos, transformando-os em dementes inescrupulosos, arrogantes cheios de direito, e egoístas. Um pai não pode mais bater no filho que está indo contra a lei. Aí o filhão, gente boa, produto dessa hipocrisia, aos 15 anos de idade decide tomar o carro do pai e dar uma voltinha. O pai que não pode bater, e já não tem argumentos para conter esse pequeno monstro, faz o quê? Nada. O garoto sai aos pulos no sedã do velho e atropela uma família que esperava o ônibus na esquina. Quem paga o pato? O velho, que de mãos atadas pela sociedade e até por ele próprio que por ter (ou não) educado mal seu filho, agora vive refém desse tipo de mentalidade paternalista.

As pessoas vivem uma época em que não se pode mais demonstrar seus defeitos. A todo custo o que for tido como ruim deve ser escondido, e aí vivemos a ditadura do perfeitinho, do bonequinho politicamente correto. Acho que as pessoas trouxeram para o mundo real essa mentalidade cibernética das redes sociais, em que todo mundo se pinta de correto e bonzinho. Só falta um nariz redondo e vermelho para parecerem palhaços. Claro, sem querer ofender os palhaços. Que fique claro, não tenho nada contra palhaços, por favor, não me processem! Aí fica todo mundo igualzinho, uniforme e alienado, fingindo boas intenções 24 horas por dia. Vivem como ouvi de um amigo outro dia: um ativismo de sofá.

Eu sou do tempo que as pessoas eram mais elas, mais autênticas, menos burocráticas, caretas, chatas. Sou do tempo do Romário, do Túlio Maravilha. Agora não, tem o chatinho do Neymar, que fora jogar futebol, vive uma falsa humildade que grita: marqueting! Enquanto que na minha opinião não passa de uma arrogante, feio e burro. Não sei como a sociedade pode ser tão míope que não percebe isso. Acho que deve ser mais cômodo, fingir que não percebe o que alguém está fingindo ser, enquanto todo mundo finge não perceber quem você está fingindo ser. Da mesma forma nota-se o monte de intelectual que anda por aí, que talvez não tenha lido um livro na vida. As pessoas querem parecer o que não são e a cada dia estão ficando mais práticas nisso. Vivem sob conceitos superficiais sobre tudo, quando na verdade não entendem de nada. Quer parecer inteligente? Seja inteligente, os livros existem para este fim. Não dá para fingir ser inteligente. Um idiota só engana outro idiota. E o pior, somos geridos por essas pessoas. Nunca vi a universidade tão lotada de gente sem cultura. Até mestrados e doutorados! Nas instituições, nas salas de aula (ministrando), se propagam cada dia mais pessoas sem qualquer preparação, sem qualquer mérito para exercer funções sociais e formar opiniões. Não sei se só eu vejo isso, mas eu vejo uma calamidade, a idiotização generalizada da raça humana que crê estar tudo no seu lugar, quando na verdade estamos caminhando para o caos organizado. Vou rezar para que não queiram me processar...

terça-feira, 31 de maio de 2011

A Chave da outra sala



Autor: Aarão Macambira

Quando amanhece eu caio em mim
O sonho que me fez voar acabou
Por um momento achei ser real...
As boas-novas não tão boas assim
 
Asas e ervas me fazem voar...
Só nos meus sonhos mais puros
Em meu sono mais profundo
Só nos meus sonhos posso tocar
 
Boa noite: é o destino da próxima viajem
Quando acordo ainda estou na estrada
Bem distante de onde quero chegar
E o medo que dá, me faz chorar
 
As gotas de mar no pára-brisa tem cheiro sol
Parece que eu morri e não sei
Andando em círculos sem chegar
Despertei daquela dor, mas ela ainda está
Onde mora meu propósito, eu não moro lá
Eu quero saber voar
Eu quero saber sonhar...
Pra saber tocar
 
A cor do som é sol
O por do sol é som
A luz da vela é o remédio
Que o choro de dor não cura
Que os olhos de amor não mudam
Viver ainda é melhor que morrer
Quem garante, não arrisca
Mas não larga o osso lambido
Como quem suga um seio com libido
E esquece que por dentro todo mundo é diferente
 
Morde...
Soluça
Beija
Entra morno no pecado...
E mais cedo é hora de acordar.
Fingir não significa ser
Mas o corpo mostra as marcas
A sua arte particular que não é exposta
E mais tarde na hora do jantar
Estender a toalha de mágoas sobre a mesa
Jarro de flores mergulhadas de cabeça
Afogadas as angústias em pétalas
 
E na hora de dormir, sonhar
Ao sonhar, voar
Ao voar, viver
Ao viver, despertar.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Devaneios ou panis et circenses

devaneios-1-de-guilherme-de-faria

Autor: alter ego

Passo o dia enrolando cabelo.
Sentindo intolerâncias.
Ânsias, anseios...
Deve ser o fígado.
Ando cansado, um pouco emotivo (talvez) desmotivado.
Trabalho, saúde, doença, saudade...
Rezo um “Pai Nosso” e tomo um calmante pra ver se a oração encurta.
Pra ver se o dia acaba a tempo de dormir.
O cabelo e o fígado em miúdos.
Há algo errado com isso tudo.
E a TV não corresponde mais aos apelos.
Nem nada em outra vida ou na próxima.
Acaba de chegar alguém, mas não é aqui.
O silêncio abafa algo aqui.
Eu não ouvi nem vi nada, não me chamem pra depor.
A paz é mesmo algo indispensável...
Cólicas. É bom saber que ainda estou por aqui, apesar de tudo.
Esforço-me para encontrar o cabelo perfeito, o fio mais cruel.
Ele não deve estar aqui junto aos seus pares. É Melhor que todos.
Bendito álcool! Afasta de mim o cigarro, os maus pensamentos vagabundos.
Devaneios que me corrompem, me devassam.
Raso, tenso.
Em mente coisas impróprias de serem ditas, mas convenientes de serem concebidas.
Por pouco!
Por muito pouco não obedeço a mim.
E tudo se dilui bem diante de mim. Em mim... Em minhas mãos.
Agora se foi, sou só eu de novo.
E me acovardo outra vez sem saber que isso me faz bem.
Eu acho...
O fígado não está são, tampouco, o que sobra.
Dissipam-se em ordem de cor tudo o que vem em mente.
Perco metade do que sou a troco de porra nenhuma.
Sem palavrões a vida não tem ênfase.
(só pra constar)
Cochila e acorda com dor.
Encolhe.
Uma boa idéia nesse momento seria totalmente inconveniente.
Nada como ter certeza do incerto.
Toda crise é obediente ao caos.
E quando se está assim é melhor não se perder de vista.
Qualquer passo em falso você pode quebrar os calcanhares.
A insônia das três.
Melhor que o sono das trevas...
Fazer o que, se sou assim?!
Não me resta muito a dizer agora.
Revirei meus botões e até agora, nenhum pensamento agradável.
Fazer o que, se sou mesmo assim?!
Foda-se, quem te ama!
Eu sou assim, chuto logo os ovos.
Não vou dar chance de o defunto levantar pra me pegar.
(risos) “Eu não!”.
Nem adianta insistir, não vou tolerar mais um instante.
Quem pensar que eu estou sóbrio...
Ganha uma dose de cachaça.
(ou um pedaço de corda pra adornar o pescoço)
“Mexa-se, soldado!”
“O rumo das coisas não vai bem.”
“E você ainda me vem com essa?!”
“É de ..!”
Em outra vida pode até ser.
Mas tá complicado...
O que vier agora... a crise engole.
(era lucro)
E nem adianta chorar.
Melhor engolir o chôro.
E engole todo, não deixa nada que possa nos comprometer.
“Você sabe como são os xeretas!”
Se pudesse pôr veneno em fofoca, o quarteirão inteiro ia pro beleléu.
Tem certas coisas que me inspiram.
Outras me fazem trabalhar.
“Acontece nas melhores famílias.”
Assim falou uma voz que veio do além.
E assim será até o papa dizer: Amém.
Tem um superman ali.
É maluco, quer voar, mas esqueceu a capa pendurada no orelhão.
Logo agora que precisava fazer a barba antes de salvar o planeta.
Com a cueca por cima da roupa, não dá mesmo!
“É osso!”
Bem que minha mãe avisou pra eu não vir ao mundo:
“Veio de besta, quem pariu foi o médico. Não tenho culpa.”
E assim se sucedem os causos mal contados.
Cólicas...
Com certeza são contrações intestinais.
“É bom fazer algo útil antes de morrer.”
Prometo que não esquecerei disto, ótimo conselho.
Será que no banheiro ainda tem papel?
Não adianta ficar aí pensando...
Agora é hora de agir ou então vai dar merda.
Outro dia penso em morrer...
Porque agora tem algo mais útil a fazer.
Será que no banheiro ainda tem papel?

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Colabore com o meu natal

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Autor: Aarão Macambira

Todo fim de ano já estamos acostumados a encontrar por todos os lugares que freqüentamos as caixinhas com os dizeres: “colabore com o natal dos funcionários”. Nos balcões de supermercados, nas portarias dos prédios. Nos elevadores de condomínios também tem, acreditem, eu já vi: “Colabore com o natal do ascensorista”. Até nos jornais do mês de dezembro vem carimbado o pedido do jornaleiro.
 
É a indústria das moedinhas e das notinhas miúdas que no final do mês fazem a diferença no natal de muita gente. Eu não dôo, porque se todo mundo em todo lugar está pedindo, eu contabilizo que cada moeda ou trocado que eu deposito na caixinha de alguém, eu posso converter para o meu próprio natal. Acho que vou fazer uma caixinha pra mim também. Vou pôr em cima da minha mesa, quem sabe algum colega complacente não queira me ajudar com alguma contribuição? Colocarei um link no meu blog com o número da minha conta pra quem quiser depositar qualquer dinheirinho, poder ficar à vontade pra exercitar a caridade.
 
Já perceberam que no natal é sempre tudo igual? As caixinhas, as confraternizações com os colegas de todos os círculos com os tão clichês amigos secretos, não esquecendo as grandes campanhas da mídia. As doações para um natal sem fome, em que se arrecadam toneladas de alimentos para os carentes, é uma forma da burguesia tentar disfarçar a desigualdade social com um pouco de caridade no fim do ano. Legal, mas será que essas doações duram até o próximo natal? E os outros meses do ano que vem? Será que alguém está fazendo campanha pra alimentar esse monte de faminto? Ora, se o pobre coitado já sobreviveu o ano inteiro só com a ajuda de Deus, no fim do ano alguém tem que dar umas férias pra Deus que nem Ele é de ferro né? Já os pobres brasileiros, estes são de aço...
 
No natal as doações são sempre as mesmas, é a gorjeta do patrão para os funcionários que ralam o ano inteiro pra deixarem ele rico. Ou é esse desencargo de consciência da classe favorecida com campanhas de uma noite ou um resto de ano “sem fome” para os coitados. E o resto? Quando será que doaremos nosso bem mais precioso que é o amor ao próximo, a compaixão e principalmente uma política de distribuição da riqueza de forma humana? Esse não é o motivo do natal? Não foi isso que Cristo quis nos ensinar? Acho que todos pensam que no fim do ano Deus tira férias, vai pra uma praia nos Jardins do Éden e deixa os filhos aos cuidados uns dos outros. E à partir de janeiro Ele volta pra tomar conta dos desafortunados outra vez.
No fim do ano os pobres coitados agradecem a complacência dos ricos e os ricos por sua vez desfrutam de suas ceias de natal com a consciência tranqüila porque sabem que dali a alguns dias lá estarão de volta todos os seus empregados com os mesmos problemas, os sem-teto ainda sem-teto e a aquela sociedade do jeito que os ricos gostam, cheia de mazelas sociais de onde eles passam o ano inteiro sugando suas fortunas para no fim do ano ofertarem suas esmolas aos verdadeiros provedores das suas riquezas.
 
Por isso este final de ano eu vou montar minha caixinha pra pedir a contribuição de todos, e ao contrário de todo mundo, vou querer que coloquem algo melhor que moedinhas e gorjetas. Vou pedir a contribuição moral de cada um. Peço que depositem consciência, tolerância, honestidade, e amor. Neste natal, caberá algo maior do que moedas na minha caixa.